-Quero calçar as botas de cadarço. - Disse a
princesa em tom desaforado. Achava um despautério que todos tivessem aderido à
moda dos sapatos pontudos bordados a fios de ouro. Eram feios e não práticos.
Já lhe bastava as vestes que a apertavam para tomar-lhe, quase por completo, a
paciência. E, enquanto as amas penteavam-lhe os cabelos, sua mãe adentra o
quarto trazendo os sapatos que a princesinha deveria usar esta noite. Eram azuis
celeste, com pequenas flores bordadas a fios de ouro e incrustados com
belos topázios.
Diante da feição de descontentamento da filha, a rainha exclamou: "Você
precisa estar linda." e foi-se. A verdade é que mesmo na ausência do
vestido azul-celeste milimetricamente ornado com flores azuis escuras e babados
brancos, dos sapatinhos bordados à ouro e da tiara de ouro encrustada com uma
enorme turmalina em forma de gota, a jovem nobre já era linda. A pele muito
branca, os olhos grandes e alongados, nos quais reluziam pupilas âmbar e os
cabelos negros quase ondulados a conferiam uma expressão que era, sobretudo,
delicada e nobre. Era inegável a sua beleza, bem como seu descaso para com todo
o culto a forma física e apreciação do belo. O que a princesa queria era
saborear a vida, e tinha a impressão de que era sempre mais fácil de fazê-lo
portas afora do castelo. Não apreciava a vida da corte de modo algum e detestaria
os bailes por completo, se não fosse pelo banquete servido, que sempre era
delicioso. Passava a maior parte do tempo comendo, isso quando sua mãe não
estava por perto para recriminar seus modos.
No entanto, no baile daquela noite, ocorreria
algo diferente. Enquanto tentava alcançar as ostras sobre a mesa, avistou a
chegada de um homem, de trajes e lábios escarlates, cabelo negro muito escuro e
pele branca. Desistiu das ostras e ficou a admirá-lo. A duquesa de Salzburg,
que percebeu o interesse da princesa, aproximou-se e cochichou:
- É o príncipe de Sardenha.- E o que faz aqui, tão longe de seu reinado? - Indagou a princesa curiosa.
- Dizem que está morando em Genebra, não sei ao certo, mas creio eu, embora minha opinião não seja das mais apreciadas nessas redondezas, que procura alguém para desposar-se.
A princesa não acreditou por completo, mas bastou esse comentário para acender a esperança no seu coração. Mesmo que o principezinho procurasse algo como um acordo nupcial, ela era uma boa opção, afinal, como filha mais velha, era bem possível que ela viesse a ser rainha futuramente. Encostou-se, então, numa coluna e o seguiu com o olhar, alternadamente, enquanto observava as danças que se conduziam no salão do palácio. Ao perceber que era observado, ele ergueu a taça e fez menção a um brinde. A princesa ruboresceu e desapareceu entre outros vestido volumosos. Ele, que ficou encantado pelas feições dela as quais carregavam uma delicadeza disfarçada, a seguiu a noite inteira, tentando uma aproximação, mas ela foi, sempre que pode, ríspida.
O fato é que nas histórias de ninar que sua mãe a
contara quando ela era pequena, as princesas eram sempre difíceis e rebeldes,
os príncipes sempre corajosos e dedicados e as histórias de amor sempre
perfeitas. Acreditava inconscientemente nisso, muito embora fosse uma grande
mentira. Na realidade, os príncipes eram quase sempre medrosos e inseguros, as
princesas dissimuladas e as histórias de amor grandes contratos sociais.
Dias depois do baile, reencontrou o príncipe em
uma de suas cavalgadas matinais. Sua curiosidade foi maior que qualquer outro
bloqueio inconsciente e então se permitiu emendar uma conversa. Descobriu
que ele estava de férias em um castelo próximo. Ao vê-lo de perto, percebeu que
ele era bastante jovem, e isso a intimidou um pouco, fazendo com que ela
reprimisse ainda mais seu desejo de conhecê-lo mais profundamente. O príncipe,
que tanto tinha interesse de estreitar relações políticas com o império
austríaco como na beleza da princesa, usou de todo o seu charme em galanteios
incessantemente durante o tempo que conversaram. Porém, diante do comportamento
da princesa, sempre seca e desinteressada, ele foi perdendo a motivação e, ao
fim dos dois meses que ficou de férias na Boémia, já nem mais queria ouvir
falar de Luise.
Ele retornou a Genebra e não voltaram a se
encontrar nos quatro anos posteriores, mesmo que tenham vivido simultaneamente
em Paris durante algum tempo. Quando tornaram a encontrar-se, Luise já era
Louise e não era mais princesa, e sim imperatriz e esposa do homem que o
nomeava tenente. Ficou se indagando como aquele homem tinha sido capaz de suportar
uma mulher tão ríspida, tão arrogante e tão intragável. A verdade é que o
imperador era tão obcecado com seus ideais que não pôde nem perceber esses
pormenores e, quando reparou na personalidade de sua esposa, ela já havia desconstruído
toda a sua amarga carapaça e se revelado como realmente era: Doce e gentil.
Ao reencontrar-se com Alberto, Louise percebeu
que ainda não havia conseguido esquecê-lo por completo e foi, secretamente, ao
seu encontro naquela mesma noite. Ele a repudiou. Nutria verdadeiro asco por ela, ser fortemente
rejeitado numa idade pueril fez com que ele não suportasse nem ao menos
dialogar com uma mulher, como ele costumava referir-se, tão pedante. A visita
noturna surpresa fez com que ele se apressasse ao máximo para encontrar um novo
endereço em Paris, porém, não precisou preocupar-se com isso durante muito
tempo, pois, pouco tempo depois, mudou-se para Turim, devido a queda do
imperador. Por essa mesma razão, a imperatriz também se mudou de Paris e não
mais se encontraram em vida.
Ele casou-se, três anos depois, com sua prima,
que muitos dizem, era extremamente semelhante a Imperatriz austríaca que o
encantara quando jovem. Ela fugiu junto com os filhos, para garantir-lhes a
segurança, e, para preencher a falta do marido, deitava-se quando em vez com o
Conde que, fosse coincidência ou não, era quase homônimo ao príncipe da
Sardenha. Dois dos filhos gerados dessa união se chamavam Alberto e Albertina,
e, por esse motivo, espalhou-se o boato de que, mesmo casando-se três vezes
antes do fim de sua vida, tendo sido princesa, imperatriz e duquesa, ela nunca
superou perder seu breve e eterno amor.
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