sábado, 14 de janeiro de 2012

Existem muitas formas de se irritar uma mulher. Pedro tinha aprendido todas com maestria. Mesmo Ana, que o conhecia e o tolerava há anos, cansou-se. A verdade é que finalmente ela tomara consciência da sua capacidade, do quão brilhante era. Reconhecia que não era necessário se submeter a um homem que, explicitamente, não tinha capacidade para apreciá-la. Por falta natural de arrogância e um altruísmo que, como classificaria Oscar Wilde, era absolutamente fatal, não conseguia livrar-se do fantasma de querê-lo a qualquer custo,embora ele já tivesse a abandonado sem a menor intenção de voltar. Mas agora, finalmente, o véu de Maya havia caido. Ele via mágica em todas menos nela, e isso a irritava e machucava, mas ela percebeu que, simplesmente, sua mágica estava num patamar que ele era absolutamente incapaz de alcançar. Encheu-se da coragem das despedidas e pensou em dizê-lo tudo que havia omitido durante todo o tempo em que trocaram confidências, questões e palavras de desejo, mas eram tantos assuntos e tão sujos e pesados que mal conseguia articula-los em frases. Pensou em destrinchá-lo por completo, seus traumas e personalidade destroçada por rejeições, pensou em ressaltar sua profunda insegurança e consciência da inteligência e criatividade limitada, pensou em muitas coisas. Pensou até, inflamada por ódio, em citar todas as vezes em que ele declarou ser mestre em uma arte da qual não conhecia os princípios básicos, e ela, por piedade, fingiu não perceber. Ao fim de exaustivos monólogos intelectuais, concluiu que ele não merecia, muito menos compreenderia qualquer critica que fosse feita e que, na melhor das hipóteses, pensaria que ela só queria chamar sua atenção para que ele a procurasse. Ainda com a caneta em punho, mas já decidida a não mais escrever uma carta, rabiscou a frase que resumia tudo, absolutamente tudo, que ela sentia: "As pessoas brilhantes sofrem muito, mas fique tranquilo, você não é uma delas, mesmo assim, eu te amei ou coisa parecida.", dobrou o papel e o largou em um canto qualquer. Se ele merecesse saber, leria a frase, de alguma forma. Nesse breve instante, vislumbrou que as histórias de amor, especialmente as amargas, não se findam pelo ódio ou pela vontade e sim pela indiferença.
Ainda imersa na epifania, degustou o fim até onde os sentidos alcançaram, e, como se presenciasse ali, naquele momento, a dança de Shiva, abriu os braços para receber o novo protagonista de sua novela particular.

3 comentários:

James (Tiago) disse...

gostei muito xD

Marina Peppers disse...

Ótimo texto!

Brupa disse...

"A verdade é que finalmente ela tomara consciência da sua capacidade, do quão brilhante era."

Estou nessa fase e é boa demais! =)