Honestamente, enquanto apreciava o vai-e-vem de pessoas pela janela, pensava que havia herdado de sua mãe a mesma efemeridade de sentimentos, no entando, um pouco às avessas, pois se para sua mãe era fácil odiar e esquecer-se quase simultâneamente, para ela, era a paixão que era tão volúvel quanto o vai-e-vem de pessoas que podia observar, constantemente, de sua janela. Bastava uma caminhada na rua, era suficiente uma frase bem construída, uma passagem de um romance recitada, em verdade, muito pouco era preciso para que ela se revestisse de uma paixão absolutamente avassaladora e passageira, de forma que, para conhecer de fato o amor, precisou, por acaso ou acidente, apaixonar-se repetida e diariamente pelo mesmo homem.
Era raro que ao anoitecer já não tivesse renovado sua paixão. Em geral, logo pela manhã, observando o sol ameno que logo se faria severo, percebia qual a qualidade daquele homem faria com que se apaixonasse mais uma vez nesse novo dia, e finda as qualidades, começou a ranquear apenas as características, e finda as características, apaixonou-se, a cada dia, por um defeito, fosse a mania irremediável de calar-se quando a devia explicações ou simplesmente a arrogância pueril de não admitir a própria ignorância com respeito a um assunto. Foi então que sentiu, pela primeira vez, o que era o amor.
Não deixou de apaixonar-se pelos outros homens, que tinham outras qualidades, outras características e outros defeitos, mas essas continuavam sendo efêmeras, embora afogueadas e potencialmente avassaladoras. O peito, em eterna guerra civil, só parecia entender o significado da paz quando estavam, ela e o homem que amava, juntos. E não estavam juntos muito constantemente, resultando em uma eterna insônia mal justificada pelas jornadas noturnas de leituras em busca de desvendar os mistérios da natureza. A verdade é que, quando deitava-se, o corpo ardia de forma tão insuportável que mais parecia que a cama havia sido convertida em uma esteira salpicada de carvão incandescente. Experimentava, sem saber, o que os homens, já em sua época, chamavam de desejo.
Cansada das noites insones e dos tormentos do eterno não-estar e do possível não-querer, decidiu que talvez fosse hora de usar o poder da efemeridade de seus sentimentos para apagar o que nem mesmo sabia nomear, pois chamava de paixão duradoura, sem ter conhecimento de que o nome daquilo que sentia era amor. Não obteve sucesso. Tentou mais uma vez e fracassou igualmente, e, cansada de fracassar, após o décimo fracassso, resolveu aceitar que talvez não conseguisse se livrar daquilo, que ora era pesado como a âncora do maior navio que já repousara sob qualquer um dos sete mares, ora era leve como um Dente-de-leão. Rendeu-se.
Rendeu-se, porém de forma armada, porque ainda que soubesse que não podia controlar, nem sequer entender o que se passava consigo, não queria se mostrar vulnerável a nem a si mesma, quanto mais aos outros. Sendo assim, manteve a dureza de um general espartano. Mas também não adiantou, pois a tal da paixão duradoura não queria viver só nela, não bastava, àquele troço que ela carregava no peito, estar lá instalado e reconhecido, queria expandir-se. E, outra vez, sentiu a cama em brasa e a noite como um eterno mal-me-quer sussurado ao pé do ouvido. Pesou-lhe, repentinamente, o olhar triste e o caminhar diáfano - que, em essência, tentava disfarçar a insatisfação - do seu homem ao partir, todas as vezes em que ela, de forma tirana, sufocou tudo que sentia para que ele, na sua simplicidade masculina, não tivesse a idéia exata se ela o amava, odiava ou apenas queria divertir-se as suas custas.
Na manhã seguinte resolveu procurá-lo. Explicitou o que não sabia ao certo explicitar, mas tentou fazer das palavras suas companheiras e quando não pôde, porque não haviam palavras que descrevessem com exatidão o que sentia, atirou-se aos seus braços e experimentou, naquele momento, instantâneo e eterno, algo que jamais conseguiu explicar e pensou consigo mesma - enquanto despia-se para seu homem, botão a botão - que precisavam inventar uma palavra cuja semântica fosse aquela paixão duradoura, aquele desprendimento de tudo que é racional, as brasas que ardem no peito juntamente com a doce e leve calma de não temer nada e, por um instante, se sentir invencível e imortal, sem saber que essa palavra já existia.
5 comentários:
Curti esse preto com laranja. =)
Bem, eu tenho temido mudar, Porque eu construí minha vida ao seu redor, Mas o tempo traz coragem; crianças envelhecem, Estou envelhecendo também.(sinopse do meu blog)
Acessa o meu blog?
"Crianças Envelhecem"
http://criancasenvelhecem.blogspot.com/
Espero a sua visita, se gostar do meu blog, segue lá, ficarei muito feliz.
Desde já obrigada, tenha uma ótima semana.
Atenciosamente Dinha".
profundooo!!
Muito bom
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