sábado, 25 de junho de 2011

Pôs a moeda no bolso dele, num movimento que de tão desimpulsionado mais parecia involuntário. Não o olhou diretamente nos olhos. Saiu. Ele ainda permanecia sentado, o violão sob as pernas. As seis cordas ainda vibrando, evidenciando o fim recente de alguma canção. Não só o fim de uma canção, mas também o de uma afeição.
Por um instante que fosse, nem que fosse o único, talvez ele tenha sentido um pouco da dor daquela mulher de saia rodada e saltos quadrados. Quis dizer algo, não conseguiu. Sentia a sufocante necessidade de dizer algo, embora nada conseguisse articular com o embaraço das suas idéias recém-violentadas por uma moeda de aço inoxidável. Meus sentimentos não estão à venda, pensou. Pôs o violão de lado e ainda tentou correr à sacada para, quem sabe, encontrá-la ainda cruzando a esquina, de tal forma que pudesse ouvir o que ele queria gritar. Mas não viu nada, nem o rasto de sua ligeira passagens por aquelas ruas.
Ela já ia longe. Tentando caminhar mais rápido do que as lágrimas que a escorriam pela face. Era uma amante inveterada das poesias, era companheira inseparável das letras, tinha um encantamento pelas notas musicais, pelas harmonias, uma devoção encarniçada aos sentimentos, mas não podia crer naquelas notas por ele dedilhadas, muito menos nas palavras que as acompanhavam. Preferiu-lhe pagar pela melodia, assim como ele, aparentemente, tentara fazer tantas vezes com o seu amor.
Sentia-se prostituída. Um desamor porsigo mesma a atormentava quando em vez. Sentia-se estúpida e inocente, altruísta e incoerente. Lia e via, em todos os personagens, um pouco da sua história. Queria se refugiar nos livros, mas nem isso a servia de refúgio, tudo parecia apenas um disfarce para sua própria dor. Resolveu, embora soasse tirana a decisão, que o fim absoluto, como a Morte e não a morte, seria a solução.
Armou-se com toda a coragem para despedaçar-se o coração e foi lá, naquele quarto, onde minutos antes as cordas do violão ainda acompanhavam a voz rouca entoando a melodia de suposto amor imensurável, e disse adeus.

4 comentários:

Guilherme Navarro disse...

Tirou o fôlego.

Anônimo disse...

oi, gostei muito do seu blog.
Entre no meu blog e veja se gosta também e seja nosso seguidor, vlw


www.hatesosweet.blogspot.com

Ana disse...

Fascinante!

Sylvio de Alencar. disse...

Um conto escrito (aparentemente), com vagar, intenção, e sentimento.
Difícil não gostar.
Fico tão feliz pela oportunidade que a net dá de conhecer criações literárias ou não, de pessoas que nem imaginávamos existir!
Talvez não nos sirvam diretamente..., talvez sim; o sentimento de união, do Uno, que isso nos traz é inegavelmente enriquecedor: não estou só, não tão só; nunca estive, na verdade. É o que digo: pode não melhorar, mas que ajuda, ajuda!
E assim vou eu, escutando palavras e sentimentos que, não sendo escritos para mim, o são mesmo assim. Realmente muito bom que, avuando por aí em busca de algum alimento, me deparo com coloridas, saborosas, e as vezes doídas criações.
Assim é.

Abraços.