terça-feira, 17 de maio de 2011

Dizem que a morte não tangia os homens de coração aflito, pois ela mesma carregava o pesar e as agruras de uma paixão interrompida. Apesar de considerado um dito lendário do folclore local, Juan Marin Torres completava, naquele dia, cento e setenta e sete anos, sem exibir sinais de saúde frágil. Era assunto corriqueiro dos moradores de Águas Bravas o mistério da vitalidade de Juan, alguns especulavam que ele, na verdade, exagerava a idade, outros atribuíam sua longevidade ao cálice de licor de anis consumido todos os dias após o almoço. Juan, se perguntado sobre seu segredo, logo retornava a sua juventude para justificar tão longa vida. Foi em um carnaval... – Dizia ele aparentemente satisfeito em rememorar-se – a conheci em um carnaval.
A mulher a quem ele se referia era Maria Tornaeli Réz, filha de um rude, porém muito rico, pescador da cidade. Era tão rico que era comum ouvir-se nas ruas boatos de sua profissão escusa. Diziam que, à noite, ele desenterrava as ossadas do cemitério matriz para negociar sempre que saia com seu barco e ancorava em outras terras. Embora fosse falsário em seus negócios, era muito severo e correto na educação de suas filhas. Eram cinco ao todo. Todas belíssimas, menos Maria. Ela era nariguda, tinha costas largas, cabelo comprido, escuro e encaracolado e era, sobretudo, feia. Sempre que saía em viagens de negócio, Antero Réz, o pai das cinco meninas, deixava encarregada dos cuidados com as garotas a governanta e mais suas doze subalternas. Assim procedeu na viagem que fizera naquele carnaval. Viajara para negociar um carregamento de peixes para o último dia do carnaval, quando não era, por religião, permitido o consumo de carne vermelha em algumas vilas vizinhas.
No penúltimo dia de carnaval, as empregadas, já cansadas de tão rígida vigilância sobre as cinco moças, descuidaram-se um pouco de Maria, mas nem se preocuparam, pois, certamente, não haveria perigo, afinal, que rapaz em sã consciência seria capaz de galantear tão feia dama?
Maria aproveitou-se da situação, colocou sua máscara e saiu às ruas para ver as bandas e o povo festejando o carnaval. Chegou a uma rua em que tocavam flautas, violinos e pandeiros, todos em plena harmonia, e o povo, em volta, rodopiava alegremente embalado pela música. Ela, vendo toda aquela animação, rodopiou junto com a multidão, até que trombou com Juan.
Quase caiu no chão, mas ele a segurou. Ela riu da situação desastrada e ele se encantou, instantânea e absolutamente, com o seu sorriso, de tal forma que nem pôde perceber o conjunto das feições da moça que permanecia em seus braços. Os amigos que o acompanhavam, vendo aquele brilho nos olhos surgir perante tão feia criatura, o bateram no ombro e sussurram em seu ouvido “Cuidado, deve ser homem.”. Ele nem ouviu. Só voltou a realidade quando ouviu o grito estridente “Sou homem nada.” e viu sua musa desaparecer ligeiramente na multidão.
Correu, mas não conseguiu alcança-la. Perdeu o rastro da calda do vestido branco que ela usava, e, dentre tantas moças mascaradas, não pôde a reconhecer. Andou angustiado pelas ruelas da cidade até alcançar a praia. Caminhou pela areia e olhou raivosamente a lua que já viera contemplar sua solidão e, então, rosnou entre os dentes “Você não é a dama de branco que eu procuro.”. Continuou seu caminho cabisbaixo até ver, atirada na areia, a máscara companheira do sorriso que lhe roubara o fôlego outrora. Levantou os olhos e avistou, sob as rochas que adentravam o mar, a moça de branco, a dona do sorriso. Aproximou-se, escalou as rochas e sentou-se ao lado dela. Quando Maria percebeu-se acompanhada, e, posteriormente, quando reconheceu a sua companhia, proferiu um desaforo estrondoso. Ele, tentando acalmá-la e defender-se disse “Mas eu não disse nada que pudesse lhe ofender.”, no entanto, ela rapidamente refutou “Não disse, mas estava com quem disse e nada fez para me defender, dá no mesmo.”. Ele, como última arma e derradeira opção, alegou “Se nada fiz foi porque estava paralisado com a beleza do teu sorriso.”. E, como era mulher feia e não acostumada aos galanteios, Maria derreteu-se toda e abriu-se para receber aquele estranho. Conheceram-se, conversaram e ainda se podia ouvir o som dos violinos animando a multidão quando trocaram o primeiro beijo. As cinco da manha, ele a pediu em casamento, usando um anel de latão, cravejado com pedras de vidro, que tinha roubado de outra moça fantasiada de cigana. Depois de aceito como noivo, ele a acompanhou até o portão de sua casa e despediram-se na certeza de encontrarem-se na tarde seguinte e em todas as outras tardes para o resto de suas vidas. Ao adentrar a residência, encontrando toda a família reunida para o café-da-manhã, aproveitou para anunciar a novidade. “Vou casar-me.” disse em tom alegre, mostrando o anel para as irmãs. O pai levantou-se da cadeira posicionada na cabeceira da mesa e, socando revoltado a madeira, bradou “Vai casar nada. Você que é feia, vai estudar para tomar conta dos meus negócios quando eu começar a perder a noção de que o ouro pode ser até mais importante que a própria vida.”. Maria arregalou os olhos, estarrecida perante tal comentário. Quando entendeu a gravidade da situação, desmantelou-se em pranto e correu para o quarto. O pai, ainda enfurecido, mandou cortar-lhe os cabelos e arrumar-lhe as malas. Não amanheceria mais naquela residência.
Juan esperou por ela aquela tarde e muitas outras, nas quais foi às rochas, ao portão em que havia a deixado e há muitos outros lugares na esperança de encontra-la. Caminhou em vão. Nunca mais a vira desde então. E já haviam se passado cento e cinquenta anos.

4 comentários:

Débora Sader disse...

Parabéns pelo blog!!! Já sou seguidora :) Também tenho um, Espaço Poético, www.deborasader.blogspot.com
Se quiser conhecer, será um enorme prazer! E se gostar, me segue lá!

Bianca Azulay disse...

Que texto lindo e envolvente, nossa! *-*
Muito,muito bom mesmo! Parabéns!

Annie Lee Cooper disse...

Muito interessante, muito bom. Parabéns Klaraa! :D

Nanda Assis disse...

gostei muito daqui, pena n ter o quadrinho de seguidores.

bjosss...