Da padaria, trouxe a tortinha de morango mais vermelha que pode encontrar, seria sua maior companhia aquela noite. Levou-a para casa, e, após o jantar, acendeu um palito de fósforo e espetou na tortinha. Não tinha tido tempo, ou paciência, para comprar uma vela. Também, não fez nenhum pedido ao soprar a chama sobre o palito. Já não tinha mais esperanças que esses desejos viessem a se realizar. Durante muito anos, pedira para ser um pouco menos sozinha, para encontrar alguém que a compreendesse e a acompanhasse, mas há mais de vinte anos, pedia em vão.
Devorou a tortinha e, de súbito, sentiu-se completamente sozinha. Como se sua única, e verdadeira, amiga tivesse zarpado para uma terra distante. Encarou a solidão como pode, mas não podia muito. Desatou a chorar. Copiosamente. Fechou a janela para que ninguém a visse daquele jeito, no entanto, o que mais desejava é que alguém a visse, de algum jeito, e a salvasse daquela dor pungente e latente.
Atirou-se a cama e encolheu-se em posição fetal. Deixou que as lágrimas escorressem na esperança de que com elas fossem embora também a dor da solidão, mas essa permaneceu austera e onipresente. Já não mais distinguia sentir e sofrer. Estavam atrelados de tal forma que, uma vez separados, fariam com que ela perdesse sua essência mais pueril. A eterna saudade do que não teve e a presente solidão que essa ausência a legou.
1 comentários:
Amei esse texto *.*
O que eu mais queria é que alguém me visse de certa forma, para salvar-me daquela dor imediata que não passa.
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